sexta-feira, outubro 27, 2006

 
IDA

Sempre dedicada, embora aviltada e ofendida.
Hoje, ela foi demitida.
Ficou, é claro, deprimida.
Se imaginou louca, suicida.
Pensou em sua casa após a saída
Da empresa, essa que era sua vida,
Agora meio morta, meio perdida.
Tinha algum trocado, pegou táxi, deu a partida
O carro, tal como seu orgulho e sua querida
Rotina de papéis e de batida
De ponto, mas tudo muda com o soco na mesa mais temida,
A do chefe, que um dia, enfim, triunfaria: “despedida!”
Já no lar, ela que se chama Ida,
Pegou no colo o filho pequeno, ela que é ‘pãe’ e ‘marida’,
Beijou-o com uma lágrima contida,
Pensou, falsamente decidida,
Que superaria essa situação indefinida:
Hoje, amanhã e depois com que guarida?
Por sorte, tinha o seguro, o fundo, mas ficou contraída
Quando lembrou que tudo acaba diante de seu destino já de envelhecida
Mulher de 30 e poucos anos, sofrida, sofrida,
O ex sempre ausente, presente só na bebida
Ou nalguma cama prostituída.
E assim passaram três anos e ela continuou sendo aquela Ida
Levada pelo esforço de uma vida diminuída,
Porém, ainda com a esperança, por teimosia, não ida,
De, no Amanhã, ser formalmente readmitida.

(Matheus Fontella)

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